Hortas comunitárias florescem com futuro

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A Câmara Municipal vai alargar o projeto de hortas urbanas comunitárias para a zona norte da Algodeia, o que permite reforçar a oferta de áreas de cultivo destinadas a cidadãos e potenciar a produção local de alimentos biológicos.

As futuras hortas urbanas do Parque Pedagógico da Algodeia, a serem instaladas numa área com 6768 metros quadrados, elevam para perto de duzentos o número de parcelas urbanas que existem no concelho para o desenvolvimento de várias atividades agrícolas sustentáveis, naturais e sem utilização de produtos químicos.

As novas áreas de cultivo comunitário, dinamizadas no âmbito do projeto municipal Hortas Urbanas de Setúbal, vão ser criadas em terreno localizado entre o campo de râguebi e a Ribeira da Figueira, onde antes existiam hortas informais, constituindo-se como uma das unidades de um vasto programa de requalificação de toda a Algodeia Norte.

“Há vários anos que famílias cultivavam hortas naquela área e tiveram de sair devido às obras de regularização do troço final da Ribeira da Figueira e bacias de retenção. As pessoas foram, posteriormente, convidadas a continuar o seu cultivo nas hortas das Amoreiras. Algumas aceitaram, outras não”, explica a vereadora do Ambiente da Câmara Municipal de Setúbal, Carla Guerreiro.

Tendo isso em conta, destacou a autarca, o projeto pretende manter a atividade agrícola que se fazia naquele local antes das obras que decorreram na cidade com vista à melhoria das condições de escoamento hidráulico, além de expandir a rede de hortas urbanas no concelho.

“A ideia é voltar a colocar naquele terreno novas áreas de cultivo, mas agora devidamente preparadas para o efeito, de forma mais organizada, legal e com gestão municipal, na mesma lógica das já existentes e consolidadas Hortas Urbanas das Amoreiras.”

O novo equipamento de utilização comunitária prevê a criação de 48 talhões, dois deles para pessoas com mobilidade reduzida, chegando a 48 agregados familiares residentes no concelho, com os benefícios ecológicos e ambientais, económicos, sociais e de lazer a aliarem-se a vantagens do ponto de vista de uma alimentação saudável e de um maior bem-estar psicológico.

O chefe da Divisão de Espaços Verdes da Câmara Municipal de Setúbal, Sérgio Gaspar, explica que a agricultura urbana sempre teve uma grande importância para a comunidade naquele local da cidade.

“As hortas criadas ali anteriormente eram clandestinas e fechadas. A recolocação de áreas de cultivo comunitárias naquele local, com um maior ordenamento, permite que qualquer pessoa tenha acesso ao espaço. Além disso, a comunidade fica com melhores condições para produzirem os seus alimentos com mais qualidade”.

A intenção de replicar a experiência das hortas das Amoreiras para a Algodeia tem, igualmente, como objetivo a aposta dos circuitos agroalimentares locais e curtos, ou seja, aqueles que têm, no máximo, um intermediário, assim como a respetiva diminuição da pegada ecológica.

Nos Viveiros Municipais das Amoreiras, localizados na Avenida D. Pedro V, as hortas urbanas são compostas por um total de 138 parcelas, estando duas delas instaladas em terreno sobrelevado para pessoas com mobilidade reduzida.

Desde o início deste projeto, em 2013, realça Elisabete Mesquita, da Divisão de Espaços Verdes e responsável pela gestão das hortas das Amoreiras, a Câmara Municipal tem feito um “grande investimento” para infraestruturar o equipamento, com melhoramento de caminhos de circulação para os utilizadores, marcação das parcelas e instalação de abrigos para armazenamento de ferramentas agrícolas.

Aos hortelões, a autarquia disponibiliza, ainda, unidades de compostagem para restos vegetais, instalações sanitárias, acesso a abastecimento de água com rega manual e mais de uma dezena de contentores de 800 litros para aproveitamento dos resíduos urbanos biodegradáveis criados nas hortas, contribuindo, com esta prática, para o “descongestionamento do ambiente urbano e a diminuição da pegada ecológica”.

Estilhas resultantes de restos de podas de árvores da cidade também são cedidas para “não evitar que haja evaporação da água ou para incorporar no solo e para melhorar a textura do mesmo”, sublinha a técnica municipal.


As Hortas Urbanas das Amoreiras, divididas em espaços de 30 metros quadrados dimensionados para produzir os alimentos necessários à subsistência de uma família, sempre em respeito pelos métodos de agricultura biológica, têm uma procura tão grande que há, atualmente, três dezenas de pessoas em lista de espera.

“Por esse motivo, a estratégia é aproveitar terrenos não ocupados, com espaços distanciados entre si, de maneira a servir a população entre os vários bairros e as freguesias do concelho”, complementa Sérgio Gaspar.

Nos viveiros das Amoreiras, Diamantino, 88 anos, o mais velho membro da comunidade e um dos munícipes que, durante alguns anos, cultivaram aquele terreno da Ribeira da Figueira, refere os benefícios do projeto para o combate ao sedentarismo e solidão.

“Quando não vier cá é porque a coisa não está muito boa. Onde é que eu já estava se não fosse isto… É uma terapia”, conta em conversa no local nas vésperas do Dia da Terra, assinalado mundialmente a 22 de abril e comemorado localmente com a realização de workshop online sobre como criar e manter uma horta em casa por André Maciel.

Uns metros mais à frente, Alice empurra com as mãos a terra de couves. Para a professora, aquele espaço verde depressa se tornou uma prioridade. “Quando venho para a horta, digo que vou para o ginásio. Aqui, faço amizades. Quando vou de férias, há sempre alguém que cuida da minha horta.”

Cuidadas com dedicação, nas hortas urbanas das Amoreiras nascem repolhos, brócolos, chuchus, nabos, tomates, couves de várias espécies, abóboras e muitos outros produtos. Há também laranjas e um pomar, uma vinha, ervas aromáticas e flores, tudo integrado no âmbito da agricultura biológica.

Por ali, voam pássaros, borboletas, abelhas, ouvem-se rãs e passeiam gatos, “que fazem muita falta para caçar ratos”, comenta Elisabete Mesquita.

Há ainda uma série de animais, designados de auxiliares das hortas porque apoiam o processo de polinização e atraem insetos que não são bons para as plantas, nomeadamente piolhos e lagartas.

A maior parte dos alimentos produzidos nas hortas é para autoconsumo dos próprios hortelões e famílias. Além disso, realizam-se regularmente campanhas de solidariedade social, com doação de produtos a instituições para serem distribuídos por famílias carenciadas do concelho.

O projeto das Hortas Urbanas de Setúbal tem como principais linhas orientadoras a promoção e o incentivo a atividades de horticultura em modo biológico, fomentando as práticas ancestrais de trabalho do solo, o uso e a partilha sustentável da água e o aproveitamento das características naturais das plantas.

O estímulo da integração e da convivência multicultural é também objetivo desta iniciativa, que, entretanto, cresceu para o território da Bela Vista.

As hortas da Alameda das Palmeiras, desenvolvidas em parceria com a equipa do programa Nosso Bairro, Nossa Cidade, foram criadas em espaços destinados originalmente a canteiros, junto de habitações.

“Esta área é cultivada e cuidada por moradores do bairro. E é muito interessante ver-se como da mistura de culturas nascem hortícolas diferentes de horta para horta. Na da Alameda há cana-de-açúcar, alimento que por exemplo já não é plantado nas Amoreiras”, constata Sérgio Gaspar.

O projeto, que disponibiliza ainda ao público visitas guiadas e visitas intermunicipais, a par de cursos de formação, destina-se a munícipes maiores de idade que não possuam qualquer tipo de exploração agrícola e implica o pagamento mensal de 7,5 euros.


Existe ainda um grupo de cinco porta-vozes responsável pela comunicação entre o gestor e os utilizadores, constituído por João Ceia, Luís Figueiredo, Fernando Pinheiro, Isidro Patrício e Octávio Martins.

Mais informações podem ser obtidas em www.mun-setubal.pt/hortas-urbanas-de-setubal/, www.setubalambiente.pt/hortas-urbanas/ ou no endereço de correio eletrónico diev@mun-setubal.pt.

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publicado 22/04/2021

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