Renée Gagnon já viveu várias vidas e todas elas começaram com uma viagem. Como a deslocação ao Alentejo, em 2014, em que deu por si a fotografar oliveiras ancestrais. Ficou de tal forma impressionada com os sulcos daqueles troncos que se lançou na pesquisa que a levou à Sardenha italiana ou ao museu de oliveiras milenares ao ar livre nos arredores de Barcelona. No regresso ao seu estúdio em Lisboa, começou a trabalhar as fotografias em Photoshop e a aplicar-lhes tinta, posteriormente, num processo evolutivo, de construção da imagem; em que se acrescentam camadas artísticas ao original fornecido pela natureza. O resultado final é apresentado na exposição “Now and Ever | Oliveiras” no Museu das Comunicações entre 14 de julho e 30 de setembro de 2017.

A inauguração, no dia 13 de julho às 18h30, inclui o lançamento do catálogo que conta com as colaborações dos professores Raquel Henriques Coimbra, Jorge Gaspar e José Gouveia, especialista em azeite que organizará também ali uma sessão de degustação. A viver e trabalhar em Lisboa, tendo feito toda a sua carreira artística em Portugal, Renée Gagnon estará disponível para a marcação de visitas guiadas (para o e-mail renee@marfilmes.com) que ajudem à contextualização do seu trabalho. Depois de várias décadas dedicadas ao cinema, regressa às artes visuais para nos ajudar a ver na oliveira “um ser vivo que atravessa os séculos”. 


Dias úteis das 10h00 às 18h00, sábados das 14h00 às 18h00 - encerra aos domingos e feriados


Da Oliveira

“A busca da eternidade é obsessão de todas as religiões e o que mais se assemelha a essa busca é a existência de árvores que atravessaram os séculos e continuam a dar fruto. A Oliveira é uma dessas árvores mágicas. Provavelmente oriunda da Turquia, cobria outrora matas silvestres de toda área circundante do Mediterrâneo e suas ilhas. A Oliveira brava é mais antiga do que o aparecimento do homem.

Em Bechealeh, no norte do Líbano, encontram-se Oliveiras de idade superior a seis mil anos que assistiram ao Dilúvio. Segundo a Bíblia, foi uma pomba que levou a Abraão o ramo de Oliveira que anunciou o fim da ira de Deus. Segundo Homero, a deusa Atena plantou uma Oliveira na Acrópole, para auspiciar prosperidade. E a literatura ocidental refere-se inúmeras vezes à Oliveira.

Ainda existem no Alentejo e no Algarve exemplares com mais de dois mil anos. Quando as vi pela primeira vez, senti um choque físico, quase carnal; a reflexão cultural veio mais tarde. Estes gigantes retorcidos, bojudos, enrolados sobre si mesmos ou explodindo em vários troncos, ao mesmo tempo pedra e seiva, são extremamente impressionantes. Peguei na máquina fotográfica para fixar a minha emoção.

Depois do primeiro choque no Alentejo, fui  procurá-las na Sardenha (espécimes de mais de quatro mil anos), ao sul de Barcelona (a maior concentração do mundo de oliveiras milenares, mais de quatro mil e duzentos exemplares) e em Creta. Fotografei-as à luz da primavera, do verão, do outono e do inverno. Entraram no meu corpo e restituí-as com a minha sensibilidade, o meu percurso artístico e humano.

Usando técnicas de manipulação e transformação da imagem fotográfica, obtenho impressões a cores de grande dimensão (1,26 m de largura) de árvores isoladas que recrio manualmente. Paralelamente, trabalho sobre impressões de pequenas dimensões, de olivais com árvores mais jovens, que assumem tons de aguarela. Antepondo um acrílico muito espesso, transformam-se em objectos. Umas e outras procuram comunicar a emoção que me transmitem estes gigantes do tempo, e consubstanciam em mim a Ideia que tenho hoje da Oliveira.”


Renée Gagnon