Nova produção do coletivo portuense Visões Úteis sublima a
entrada do autor num mundo de encantamentos e, através da casualidade do Tarot
e afins, explora a experiência através da fenda de emoções que vai do desejo ao
medo. Coproduzida com o Teatro Municipal de Vila Real, estreia no Teatro do
Bolhão (Porto) em novembro
Tudo
começou com uma coleção de anúncios de feiticeiros (sim, daqueles que se
costuma encontrar nos limpa para-brisas dos carros). Que, perante o fascínio do
autor, derivou depois para um curso de Tarot ministrado por dois ex-professores
universitários. O resultado da síntese artística que se lhe seguiu, esse, vai
ser possível apreciar já em novembro, no Teatro do Bolhão, no Porto, sob o
sugestivo título “O Diabo em mim”. Um espetáculo a solo do dramaturgo Carlos
Costa, diretor artístico do coletivo portuense Visões Úteis.
A
nova criação da companhia saiu do olhar singular do também escritor sobre as
simples circunstâncias da vida. O qual, para o caso em apreço, partiu das
palavras, transformadas em promessas, de um qualquer Professor Bacari ou de um
Mestre Mafu, sobre as “performances voltadas para o futuro e, mais ainda,
empenhadas na transformação” de vidas. Claro está, com a página em branco de um
“amanhã sempre aberto a possíveis reescritas, com amor, saúde, dinheiro - tudo
no horizonte”.
Foi,
portanto, precisamente desta generosa coleção de cromos esotéricos que
nasceu a inspiração. Anos depois. E o que é que poderemos ver em cena, n’O
Diabo em mim? A peculiar visão de Carlos Costa sobre “práticas
propiciatórias, (in)realidades capazes de operar num interstício entre desejo e
medo”. Pois… lá está o jeito do criador para aquilo que mais ama: as palavras
que abrem mundos, sim. Ou seja, e permanecendo na afirmativa, “sim, vamos ler
cartas!”. Uma “absoluta incongruência agora que a Inteligência Artificial está
ao nosso alcance”. E mais? “Mais poesia do que senso comum”…
O
Tarot de Marselha, as Cartas de Jogar e o Oráculo de Lenormand - os três
módulos frequentados pelo responsável do Visões Úteis nos cursos da Aradia
Academy (de Camelia Elias e Bent Sorensen, professores universitários que
abandonaram a carreira académica para se dedicarem exclusivamente à
cartomancia) - ajudaram à festa, digamos assim.
Na
sinopse que faz a arqueologia do contexto da criação e produção d’O Diabo em
mim, Carlos Costa remete-nos para a estreia da peça “Versão Beta” (2021) - um
solo em que mergulhava no passado -, e para o novelo com três linhas da sua
própria biografia: a) a sua primeira cassete vídeo; b) a leitura de uma obra de
Marcel Proust; c) e um improvável espetáculo com uma estreia prevista para
2038…
Tudo
foi depois sublimado em cinco meses de trabalho intenso. Período durante o qual
o aprendiz – “não de feiticeiro, mas de cartomante” – diz que experimentou um
“profundo desvio cognitivo”, convencendo-se a determinada altura que, “formatado
pelo século anterior, talvez não pensasse bem”, ou, então, não fosse “capaz de
mais do que pensar”.
“O
Diabo em mim” é, assim, a nova etapa que permite seguir em frente. Sem medos,
mas sem deixar de, aqui e acolá, olhar para trás e para os lados. Não vá… o
diabo tecê-las.
“O
Diabo em mim”
Agenda:
27 de novembro
(sexta-feira), às 19h00
28 de novembro
(sábado), às 21h00
29 de novembro
(domingo), às 16h00
Sempre
no Teatro do Bolhão
Ficha
artística e técnica:
Direção, texto,
interpretação - Carlos Costa; cenografia, figurino e adereços - Maria
Manada; desenho de luz - Pedro Correia; design gráfico e registo
audiovisual - Sara Allen; banda sonora e desenho de som - Vasco
Zentzua; coordenação de produção - Cláudia Alfaiate; produção
executiva - Margarida Barreiros Feijó; parceria - Teatro do Bolhão;
produção - Visões Úteis, em coprodução com o Teatro Municipal de Vila Real;
agradecimentos – Ana Vitorino, Bent Sorensen, Camelia Elias,Inês de Carvalho, Joana Ferrajão, Luís Mestre e Mafalda
Banquart; classificação etária – maiores de 12 anos de idade; duração
aproximada – 60 minutos
Sobre
o Visões Úteis:
O
Visões Úteis é um projeto artístico sediado no Porto, onde foi fundado em 1994.
O teatro foi a raiz de uma atividade constante e intensa que rapidamente se
alargou a outras áreas das artes performativas. O coletivo recebeu em 2001 a
Medalha de Ouro de Mérito Cultural da Cidade do Porto. O raio de ação do grupo
estende-se a uma panóplia de projetos, paralelos à criação e itinerância de
espetáculos, que desde sempre traduziram o desejo de confronto com outras áreas
e com públicos distantes da produção artística.