Encostada à Cerca Velha e sobre o antigo fosso da muralha, este perpetuado na
toponímia urbana por Alcárcova, que se
encontra a Fábrica dos Pastéis. A Alcárcova de Cima, que é a rua mais
estreita da cidade, situa-se ao longo desse antigo fosso, ou carcova, terminando junto da mais
imponente torre que defende a muralha antiga; dela diz a tradição ter sido
erigida em tempo de Sisebuto, rei visigodo (século VII). Na mesma rua e num
sinal de que a muralha é de uma época posterior à primeira fase do assentamento
romano, situa-se a Domus da Casa de
Burgos, com a suas paredes ainda revestidas de pintura a fresco datáveis do
século II da nossa Era.
Se a Alcárcova de Cima corresponde a um antigo
arruamento medieval nas costas da Praça
Grande, escondido e até em dado momento comprometido com uma das mancebias da cidade, tem ela hoje uma destacada
importância como artéria de circulação turística. Além do tipicismo da rua, umas
das preciosidades históricas que dela se destaca é a vizinha caixa de água do aqueduto
quinhentista (1536), peça lavrada em 1536 pelo arquitecto Miguel de Arruda no
mais puro classicismo, de resto ela própria introdutora do Renascimento pleno
em Évora, numa época em que a cidade era a segunda do país e a corte aqui
residia em permanência (1532-1537).
Já no interior da Fábrica dos Pastéis, aí
pode o visitante admirar o troço monumental da muralha romana e, abrindo-a a
toda a profundidade, uma porta de pequena largura. Esta porta está sobre o decumanus maximus da Évora romana, via
principal que conduzia à acrópole e ao templo. A sua origem é tardo-romana e até
à baixa Idade Média marcou umas das portas da cidade. Talvez seja esta a
primitiva porta de Alconchel (talvez do árabe Alcanchal como sinónimo de «caminho difícil») que abria para a
praça fronteira à ermida de Santo Antoninho (Santo Antão) e onde permanece viva
a tradição medieval de aí venderem, em poios próprios, as padeiras e fruteiras.
Ciente de uma tão rica história
patrimonial, a gerência da Fábrica dos Pastéis, está hoje apostada na valorização de um dos
produtos mais genuínos de Portugal – o pastel de nata. Diga-se que este doce,
sendo um produto típico de Lisboa, sobretudo de Belém, tem uma larga tradição
que entronca na doçaria conventual portuguesa de que a de Évora é,
reconhecidamente, uma das mais ricas do país, como provam o célebre pão de rala, a encharcada, ou até a desaparecida escorcioneira. Mas pouca gente sabe que os patéis de nata já se produziam
no vizinho convento de Santa Catarina de Sena e do mesmo modo como hoje se faz:
massa folhada muito fina, natas frescas e espessas, açúcar e gemas de ovos.
Passaram vários séculos e o sabor original
dos pastéis de nata de Santa Catarina de Sena perdeu-se com a extinção das
ordens religiosas (1834). Mas uma certeza podem ter os clientes da Fábrica
dos Pastéis: os que aqui são produzidos diariamente, respeitando a
receita original, são um tributo à melhor tradição da doçaria eborense.