No ano em que celebra 195 anos, a Vista Alegre rende-se à “nona arte”, revelando, de forma surpreendente, que a superfície tridimensional e brilhante de uma peça decorativa em porcelana pode ser um suporte privilegiado para banda desenhada.
Demonstrando uma vitalidade ímpar e um diálogo permanente com criadores dos mais variados domínios artísticos, a Vista Alegre apresenta na 30ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora a primeira banda desenhada sobre porcelana do mundo: Mare Clausum, da autoria de Penim Loureiro.
A peça decorativa de grandes dimensões, os estudos e esquissos originais de Mare Clausum vão estar em destaque na Amadora BD de 24 de outubro a 3 de novembro, ao lado de algumas das maiores lendas da “nona arte”.
Mare Clausum é a primeira peça da nova coleção da Vista Alegre Je Kraak, que resgata um estilo de decoração milenar da porcelana chinesa, em azul-cobalto (azul de grande fogo), atualizando-a para o século XXI através da sua ligação a criadores contemporâneos de banda desenhada.
Desafiado pela Vista Alegre a transpor a bidimensionalidade da banda desenhada em papel para a superfície curva e sem limites de uma talha oriental em porcelana de grandes dimensões, Penim Loureiro recua ao século XVI em Mare Clausum, para contar a história da introdução da porcelana na Europa, e o papel dos portugueses na globalização do misterioso material branco, translúcido e brilhante que fascina o ocidente desde então.
KRAAK - A PORCELANA CHINESA DAS CARRACAS PORTUGUESAS
Portugal é o país responsável pela introdução da porcelana no Ocidente. As primeiras porcelanas de exportação chegaram no século XVI ao continente europeu, nas naus de Vasco da Gama, com Portugal a deter o monopólio das rotas de navegação marítima do Índico – Mare Clausum / Mar fechado –, por via do Tratado de Tordesilhas (1492). Rapidamente toda a Europa cobiçava peças produzidas neste misterioso material que chegava à Europa exclusivamente nas carracas portuguesas (embarcações de grande lotação), criando um importante monopólio comercial para o país.
A invenção da porcelana transporta-nos, porém, para a China dos séculos VII a X, marcados pela Dinastia Tang. O navegador italiano Marco Polo (1254-1324) terá sido o primeiro ocidental a ter contacto com as peças de porcelana, tendo-as descrito como algo que se assemelhava ao nacarado das pequenas conchas. A palavra “porcelana” advém, aliás, do italiano porcella (molusco de concha branca, brilhante e translúcida). Em grande parte do mundo, a porcelana é também conhecida como “China”, numa alusão ao berço da porcelana, que nasce da mistura de dois minérios: o feldspato e o caulino.
No início do século XVII, entre 1602 e 1604, navios piratas holandeses capturam duas carracas portuguesas carregadas de porcelana chinesa de exportação, que foi leiloada nas cidades de Middelburg e Amesterdão, por valores muito elevados. Surge assim o termo “kraakporselein”, onde “kraak” é uma reinvenção da palavra portuguesa “carraca”, numa alusão às embarcações que tinham caído nas mãos dos piratas holandeses com a preciosa carga.
Esta é a história que Penim Loureiro conta em jeito de lenda em Mare Clausum da Vista Alegre – o momento de contacto entre o Ocidente e o Oriente, unidos pela porcelana. Uma banda desenhada em porcelana, onde se inscreve em tons de azul profundo a história da porcelana e dos Descobrimentos portugueses, numa narrativa gráfica de linguagem universal onde não faltam piratas, humor e magia.